A lenda do Barba-Azul faz parte do livro "Mulheres que correm com os Lobos" de Clarissa Pinkola Estés. Ela é analista junguiana, contadora de histórias,doutora em estudos multiculturaiss e psicóloga clínica.
A lenda do Barba-Azul fala sobre os vários aspectos da psique feminina, revelando a psicologia da mulher em seu estado mais puro na busca do auto-conhecimento. Barba-Azul mostra como sarar as feridas que parecem não ter cura.
Psiquê ou psique vem do grego, que na mitologia grega é uma divindade que representa a personificação da alma.
A alma ou psique, é o elemento intrínseco no ser vivo, sendo diferenciada entre homens e animais somente pela intensidade e profundidade em que ocorre com cada um deles. A alma ou psique, compõe humanamente falando as faculdades de expressar as emoções humanas.
Exemplos das funções da psique ou alma: raciocinar, refletir, pensar, definir, alegrar, zangar, chorar, desejar, executar, ....
No entanto, o Barba-azul, depois de casar-se com a mocinha, resolve testá-la oferecendo-lhe uma falsa liberdade para fazer aquilo que bem quiser, exceto uma única coisa – usar uma certa chave de um misterioso cômodo da casa.
A mocinha, ingênua e tomada pela curiosidade, acaba traindo a confiança de seu marido fazendo exatamente aquilo que lhe foi proibido, e quase é levada à morte. Porém, no final, a mocinha consegue reunir forças e escapar de seu predador, que acaba tendo um final terrível.
A Lenda
Conta-se que existe uma mecha de barba azul que fica guardada no convento das freiras em montanhas distantes. Essa mecha de barba azul, tão azul quanto o gelo escuro do lago, pertenceu um dia alguém de quem se dizia ser um mágico fracassado, um homem gigantesco com uma queda por mulher, um homem conhecido pelo nome de Barba-Azul.
Dizia-se que ele cortejava três irmãs ao mesmo tempo. As moças porém tinham pavor daquele pedaço de barba azul e se escondiam quando ele chamava. Num esforço para convencê-las da sua cordialidade, ele as convidou para um passeio na floresta. Chegou conduzindo cavalos enfeitados com sinos e fitas cor-de carmim. Acomodou as irmãs e a mãe nos cavalos e partiram a meio-galope floresta adentro. Lá passaram um dia maravilhoso cavalgando, e seus cães corriam a seu lado e à sua frente. Mais tarde, pararam debaixo de uma árvore gigantesca e o Barba-azul as regalou com historias e lhes serviu guloseimas.
"Bem, talvez esse Barba-azul não seja um homem tão mau assim", começaram a pensar as irmãs.
Voltaram para casa tagarelando sobre como o dia havia sido interessante e como haviam se divertido.Mesmo assim, as suspeitas e temores das duas irmãs mais velhas voltaram, e elas juraram que não veriam o Barba-azul de novo. A irmã mais nova, no entanto, achou que, se um homem podia ser tão encantador, talvez ele não fosse tão mau. Quanto mais ela falava consigo mesma, menos assustador ele lhe pareceria, e sua barba também parecia ser menos azul.
Assim, quando o Barba-azul pediu sua mão em casamento, ela aceitou. Ela havia refletido muito sobre a sua proposta e concluído que ia se casar com um homem muito distinto. Foi assim que se casaram e em seguida, partiram para seu castelo no bosque.
Um dia ele disse que ia viajar por algum tempo. Convide sua família para vir aqui se quiser. Pode cavalgar nos bosques, mandar os cozinheiros prepararem banquete, pode fazer o que quiser, qualquer desejo que o seu coração tenha. Tome minhas chaves. Pode abrir toda e qualquer porta das despensas, dos cofres, qualquer porta do castelo; mas essa chavinha, a que tem no alto uns arabescos, você não deve usar.
Está bem disse ela, ela está tudo certo. Poder ir, meu querido,e não se preocupe e volte logo. Ele partiu e ela ficou.
Suas irmãs vieram visitá-la e alegremente a jovem esposa contou que poderiam fazer o que quizessem, entrar em qualquer aposento dos 3 andares do castelo, exceto um.
As irmãs resolveram fazer um jogo para ver que chave servia em que porta. Cada ala do castelo tinha cem portas, e como havia muitas chaves no chaveiro, elas iam de porta em porta, divertindo-se imensamente ao abrir cada uma delas. Atras de uma porta havia uma despensa para mantimentos, atras de outra, um depósito de dinheiro. Todos os tipos de bens estavam atras das portas, e tudo parecia maravilhoso o tempo todo. Afinal, depois de verem todas aquelas maravilhas, elas acabaram chegando ao porão e, ao final do corredor, uma parede fechada.
Ficaram intrigadas com a última chave, a que tinha o pequeno arabesco.
..............
Sem pestanejar, uma das irmãs pós a chave na fechadura e a girou. O trinco rangeu, a porta abriu-se, mas lá dentro estava tão escuro que nada se via.
Uma vela foi acesa e mantida no alto um pouco para dentro do aposento e as três mulheres gritaram ao mesmo tempo, porque no quarto havia uma enorme poça de sangue; ossos humanos enegrecidos estavam jogados por toda a parte e crânios estavam empilhados nos cantos como pirâmides de maçãs.
A jovem esposa tenta desesperadamente se livrar da chave que vertia sangue sem parar, sujando seu vestido. Quarda-a então em seu guarda-roupa.
No outro dia o Barba-Azul volta e logo sente falta da pequena chave. A jovem esposa tenta de todas as formas convencê-lo de que perdeu a pequenina Chave. Ele furioso e esbravejante fala que ela o traiu e por tal motivo terá o mesmo fim de suas outras esposas.
Tenta arrastá-la para o quarto escuro e ela pede um tempo para rezar e se redimir com Deus.
A esposa correu escada acima até seus aposentos e determinou que suas irmãs fossem para a muradas do castelo. Irmãs, irmãs, vocês estão vendo a chegada dos nossos irmãos?
- Não vemos nada na planície nua.
A cada instante ela gritava para as muradas.
- Irmãs, irmãs! Estão vendo nossos irmãos chegando? Gritou ela mais uma vez.
O Barba-azul berrou novamente pela esposa e veio subindo a escada de pedra com passos pesados.
- Estamos vendo nossos irmãos - exclamaram as irmãs. Eles estão aqui e acabam de entrar no castelo.
O Barba-azul vinha pelo corredor na direção dos aposentos da esposa.
No instante que o Barba-azul entrou nos aposentos para agarrá-la seus irmãos chegaram galopando pelo corredor do castelo ainda montados, entrando assim no quarto. Ali eles encurralaram o Barba-azul fazendo com que saisse até a balaustrada. Ali mesmo com suas espadas, avançaram contra ele, golpeando e cortando, fustigando e retalhando, até derrubá-lo ao chão, matando-o afinal e deixando para os abutres o que sobrou dele.
O Predador Natural da Psique
Pela autora, o Barba-azul
representa uma força obscura dentro de nós mesmas, que pode até nos
levar à morte, se não tomarmos o conhecimento devido à tempo.
“Compreender o predador significa tornar-se um animal maduro, pouco vulnerável à ingenuidade, inexperiência ou insensatez”.
Quantas vezes nos deixamos levar por alguém ou por uma circunstância
quando estamos mais vulneráveis? Quantas vezes somos ingênuas o bastante
para nos convencer de uma coisa qualquer simplesmente porque desejamos
algo ou alguém naquele momento? Quantas vezes nos colocamos em situações
que nos falta experiência para lidar com elas, e acabamos nos dando
mal? Quantas vezes entramos em relacionamentos fadados à acabar mal?
Muitas vezes somos ingênuas e nos convencemos de entrar em situações
confusas, ou que desconhecemos por inteiro. Na real, o ser-humano é
capaz de se convencer de qualquer coisa para satisfazer seus próprios
desejos internos mais profundos.
Ignoramos deliberadamente aquele alerta de perigo e nos
convencemos do oposto.
Como a mocinha do conto, quando imaturas, e
desconhecemos este “predador”, somos propensas a enxergar somente aquilo
que está na nossa cara, e ignoramos aquilo que não queremos ver.
O auto-conhecimento nos leva a tomar decisões e para agir em determinadas
situações, com mais assertividade. Muitas vezes somos levadas a acreditar em falsas verdades, e ao invés de
vivermos livres de posse de nossos próprios pensamentos e crenças. Escolhemos viver falsamente, acreditando que somos felizes desta
maneira, quando na verdade, estamos sendo vítimas de nos mesmas.
A Chave do conhecimento - A Cura
E a chavinha minúscula? Ela é o acesso ao segredo que todas as mulheres sabem e ainda assim não sabem. A chave é tanto uma permissão quanto um apoio para ela conheça os segredos mais profundos, mais obscuros da psique, nesse caso aquilo que degrada e destrói estupidamente o potencial de uma mulher.
O Barba-azul proíbe a jovem de usar a única chave que a traria de volta à consciência. Se ela tentar obedecer à ordem do Barba-azul no sentido de não usar a chave, estará escolhendo a morte para seu espírito.
Como a mocinha do conto, somos facilmente seduzidas com inúmeras
promessas, sejam de conforto, ascensão social, diversão, arte, beleza,
seja de um relacionamento duradouro.
O ponto crucial, segundo a autora, é
fazer as perguntas certas, de forma honesta, que nos levará às
respostas concretas.
O que eu quero para mim realmente? No que eu acredito? Por que desejo
tal coisa ? O que isso realmente representa para
mim neste momento? Sei para onde estou indo? Que
consequências isto irá me trazer?
É preciso fazer as perguntas e obter as respostas, seguir nossos
instintos, enxergar no escuro, reunir energia psíquica, saber a hora de
partir, recuar e se preparar. Ganhar tempo, analisar, investigar,
interpretar.
Tudo isto faz parte de um plano
de sobrevivência para vencer em uma situação seja ela qual for.
Seja um
problema familiar, um término de relacionamento, o desemprego,
ou até se desprender de pessoa opressora.
É preciso parar para ganhar tempo, esperar a hora certa de agir,
planejar ,reunir forças antes de realizar qualquer mudança
externa, ou dar um grito de liberdade.
A pergunta correta provoca a germinação da consciência. As perguntas são as chaves que fazem com que as portas secretas da psique se escancarem.
Segundo a autora, existe uma hora para tudo – uma hora para estremecer, de correr de pavor e a hora de simplesmente não agir desta forma.
Pois, no momento certo, na hora de agir, uma mulher não deve estremecer
e muito menos rastejar – é hora de ressurgir das cinzas e dar o bote
final.
Estou lendo o livro Mulheres que Correm com os Lobos pela segunda vez. Achei tão revelador e divido com vocês, almas femininas.
O meu propósito aqui é convidá-las a leitura deste fantástico livro. Ali contém vários contos fascinantes que irá nos levar a dissipar a cortina de
fumaça de uma vez por todas, sejam lá quaisquer que sejam as situações em que nos colocamos de vez em quando em nossas vidas.
No livro existe um aprofundamento muito maior do que o colocado aqui. Uma lição para levar conosco e passar de geração em geração.
Não importa a idade, o que vale aqui é a vivência de cada
uma de nós, a maturidade e imaturidade, a experiência e inexperiência, a
ingenuidade e sagacidade de cada uma de nós ao depararmos com qualquer
situação que exija de nós uma maior
atenção.
A cura, tanto para a mulher ingênua, quanto para a que teve os instintos fragilizados é a mesma: tentar prestar atenção à sua intuição, à sua voz interior; faça perguntas, seja curiosa; veja o que estiver vendo; ouça o que estiver ouvindo; e então aja com base no que sabe ser verdade. Esses poderes intuitivos foram concedidos à sua alma.
Conto extraído do livro: Mulheres que Correm com os Lobos - Clarissa Pinkola Estés, comentários e reflexões livres.
Conto extraído do livro: Mulheres que Correm com os Lobos - Clarissa Pinkola Estés, comentários e reflexões livres.

Nenhum comentário:
Postar um comentário