Nos grupos a que pertencemos
estamos interligados na alma, de uma forma que ultrapassa a transmissão
consciente de informações, a comunicação, o comportamento e os sentimentos
individuais. Na alma participamos de algo que confere individualidade a cada
grupo particular, a cada família, a cada empresa, a cada círculo de amigos. Nas
constelações familiares podemos perceber e “ver” a alma, essa força que une.
Muitos se surpreendem muito ao sentirem, durante uma constelação, esse vínculo
ao contexto profundo da família.
A
ideia de que, numa família, acontecimentos e destinos se comunicam através de
gerações, mesmo quando nada disso nos foi contado, causa inicialmente
estranheza nesta época da informação, que se julga esclarecida. O fato de
continuarmos vinculados à nossa família e aos nossos relacionamentos, mesmo que
tenhamos interrompido os contatos, não nos importemos mais com a grande família
e mudemos constantemente as nossas relações é algo que contradiz nossa
concepção de individualidade e de autonomia. Muitos, porém, percebem, como por
instinto, que seus relacionamentos continuam a atuar, mesmo depois de
terminados, e que eles próprios permanecem vinculados a acontecimentos importantes
em sua família, embora tenham acontecido num passado remoto. As constelações
familiares permitem que voltemos a sentir-nos como seres relacionais. Elas
fazem valer a dimensão sistêmica e histórica de nossa existência, de uma forma
que às vezes parece arcaica ou mesmo mágica.
O destino
Chamamos de “destino” as forças que, a partir do passado, vinculam-nos necessariamente aos efeitos, bons ou maus, de acontecimentos. Esses efeitos nos são “destinados”, independentemente de nossa vontade. Por outro lado estamos sujeitos a uma “sorte”, isto é, a acontecimentos que nos atingem casualmente, sem que possamos escapar. Não temos nenhuma possibilidade de interferir retroativamente naquilo que nos atinge por acaso ou como efeito necessário de um passado. Apenas no que toca ao futuro dispomos de uma certa liberdade de ação, na medida em que lidamos com o destino e podemos abrir-nos a mudanças.
As forças do destino, tais como as encontramos nas notícias dos jornais, na literatura, nos filmes e na televisão nos aparecem nas constelações como uma história pessoal. Vivenciamos dolorosamente quão pouco livres nós somos e percebemos que, sem o nosso conhecimento ou vontade, revivemos, numa espécie de repetição compulsiva, destinos passados, ocorrências funestas e problemas existenciais não resolvidos. As constelações mostram-se particularmente eficazes quando sentimos estar revivendo, sem necessidade própria, necessidades passadas e não pacificadas de outras pessoas, como se através dessa repetição algo pudesse ser reparado e ficar em paz.
A constelação familiar voltou a abrir, no contexto da psicoterapia, um espaço maior à dimensão do destino. As grandes forças da alma, que vão muito além de nossa vontade e de nossas opiniões e que interferem em nossa vida, emergem de uma espécie de inconsciente coletivo e podem ser encaradas
honradas e acessadas num processo de abertura para algo novo.
A avó que morreu no parto; a filha cuja verdadeira origem a mãe ocultou do marido; o primeiro marido da mãe, morto na guerra; o desertor fuzilado pelo pai; a avó, com seus numerosos abortos; o médico, com seus erros profissionais; a emigração do primeiro marido da avó; a própria vida numa cultura estrangeira... - tudo isso são ocorrências ligadas ao destino que afetam, em muito, as gerações subsequentes. Em face de grandes embates políticos, sociais e militares, sentimos instintivamente o mesmo que disse o jornalista belga sobre a guerra colonial no Congo: “Quantas gerações isso vai durar, até que se cure?”
“Emaranhamento” é uma das palavras mágicas que acompanham as constelações familiares. Constitui a matéria das tragédias e também das comédias. Às vezes, as constelações atuam como uma peça de teatro. De forma comprimida, dramas humanos são “encenados", sempre como histórias especiais, referindo-se a determinados destinos familiares. Na antiga Grécia as peças teatrais eram dedicadas a Asclépio, o deus da cura. Quem presenciou Bert Hellinger abordando, diante de grandes públicos, temas relevantes como os destinos dos judeus e dos nazistas, os destinos das guerras europeias ou as situações de guerra civil na América do Sul pode perceber algo da dimensão coletiva da alma e do lado coletivo da cura.
A ordem
Em sua acepção original, o termo grego therapeuein significava “servir aos deuses”, “inserir-se na ordem dos deuses”. Ainda hoje, embora encaremos a terapia num sentido profano e não mais religioso, algo nos resta desse sentido primitivo. Buscamos conselho ou ajuda terapêutica, para que em nossa alma ou em nossas relações fiquemos novamente “em ordem”.
Também as relações humanas se configuram segundo determinadas condições, ordens ou regras, quenão podemos alterar ao bel-prazer sem sofrer danos. Nas constelações familiares, as “ordens do amor” desempenham um papel importante. Para muitas pessoas isso soa como uma provocação pois quem pode saber ou, mais ainda, determinar o que está em ordem e o que não está? Entretanto, partimos do pressuposto de que precisamos de certas ordens anímicas para crescer, assim como nosso corpo pre-cisa de determinadas condições para crescer e sobreviver. Nas constelações familiares é possível perceber o influxo dessas ordens. Elas nos permitem orientar-nos no meio da complexidade de nossa vida relacionais.
Para o bom êxito das relações temos múltiplas possibilidades de ação, se bem que não arbitrárias. Quando se desenvolve, a partir de uma constelação, um processo capaz de reparar relacionamentos ou quando o terapeuta, em razão de sua experiência, aponta para ordens que trazem solução, é possível comprovar isso por seus efeitos. As constelações permitem o que a sabedoria proporciona, a saber, associar situações, que sempre são individuais e únicas, a “regras” gerais da alma. Dessa maneira, o particular e o geral podem colaborar no cliente e em seu sistema de relações, no sentido de um processo esclarecedor e ordenador. Então vivenciamos a ordem, embora ela exija algo de nós, como algo liberador e criativo, que pode tirar nossa vida do círculo vicioso de esforços inúteis e mal sucedidos.
A reconciliação
Conflitos surgem na alma quando forças contrárias nos dividem internamente e em nossas relações, obrigando-nos a lutar ou a reprimir. Então sentimo-nos divididos, dilacerados, indecisos, intranquilos, estressados ou à beira da loucura. A psicoterapia e o aconselhamento, quando buscados como ajuda, operam um trabalho de reconciliação. A principal eficácia e atratividade das constelações familiares reside justamente em sua força de ligação e de reconciliação. Elas recuperam os excluídos para as famílias. Ajudam a reconhecer, em pé de igualdade, todos os que pertencem a um determinado sistema de relações, estejam vivos ou mortos e seja qual for o destino a que estejam sujeitos. As constelações ajudam a reconciliar vítimas e perpetradores, bem como seus familiares, principalmente em casos mais graves, como abuso sexual, estupro, assassinato ou injustiça política.
É motivo de constante surpresa vivenciar com que receptividade é acolhido em todo o mundo um método e um trabalho de alma criado por um alemão, que leva em conta igualmente vítimas e perpetradores, com vistas à sua reconciliação. Quando se trata de amor, justiça, vida e morte, os processos anímicos e os sentimentos profundos são os mesmos em todos os países. Não existe quase nenhum país que não tenha sido assolado por guerras ou onde não existem graves culpas, decorrentes de extermínios, guerras civis ou conflitos sociais. Por toda parte há choques de culturas diferentes, no contexto de migrações, deportações e grandes movimentos de povos. Por toda parte percebe-se um profundo desejo de reconciliação, tranquilidade e paz entre os vivos e com os mortos. Nesse particular, as constelações familiares têm tocado em corações receptivos.
Ao mesmo tempo, o trabalho de reconciliação nas constelações permanece ligado aos destinos individuais. Não se proclama a ideia de um mundo pacífico. Permanecemos limitados e vinculados a grupos. Oposições, conflitos, interesses e partidos, luta e guerra fazem parte da realidade. Nas constelações cuida-se principalmente de lidar com conflitos com um coração pacífico. Na culpa ou na inocência, o fato de confiar-nos e confiar outras pessoas, vivas ou mortas, a uma força maior, quer a chamemos de morte, grande alma, evolução, Deus ou por qualquer outro nome, pode levar- nos nas constelações além dos processos terapêuticos e tocar-nos num nível amplo anímico, mental ou espiritual.
A AJUDA
As constelações familiares, embora sejam eventualmente oferecidas no contexto de uma psicoterapia, não constituem uma psicoterapia no sentido usual. A psicoterapia objetiva curar. Ela busca a dissolução de distúrbios da personalidade e de doenças anímicas, psicossomáticas, traumáticas e psiquiátricas, definidas segundo determinados critérios. Ela acompanha o cliente ou paciente pelo tempo necessário até que o sintoma desapareça e que advenham melhoras, a cura ou até que o cliente não possa mais ser ajudado por vias psicoterapêuticas. Tudo isso pode acontecer nas constelações familiares, como um efeito colateral, de acordo com a formação anterior e a habilitação legal do terapeuta. Nada disso, porém, é o seu objetivo imediato.
As constelações familiares podem ser quase comparadas a uma “profecia” ou a um “oráculo”. Elas simplesmente trazem à luz a conexão entre um destino e seus efeitos. Elas ajudam a “ver” a realidade de uma vida e, se possível, a preenchê-la com amor, sem influenciar o cliente quanto à forma de aplicar isso em sua vida. Os consteladores não fazem acompanhamento ou o fazem apenas em escala reduzida. Não propõem nem verificam tarefas (embora muitos terapeutas que trabalham com constelações o façam). As constelações proporcionam um insight liberador sobre os efeitos do destino, colocam em ordem relações, de uma forma saudável e que estimula o crescimento e proporcionam força, como um efeito indireto, na medida em que as pessoas aprendem a receber sua vida de seus pais e dos seus antepassados. As constelações confiam na capacidade do cliente, em sua responsabilidade e competência para lidar bem com aquilo que vivenciou.
Essa forma de encarar a ajuda difere da que prevalece em muitas formas da psicoterapia tradicional. Embora se trate frequentemente de destinos difíceis, essa maneira reservada de ajudar atua com mais leveza. Ela não tem um “cheiro” de psicoterapia. As pessoas se sentem acolhidas tais como são, com suas famílias e suas vidas. Sentem que o amor é uma base de sustentação e não precisam mudar para conseguir mudanças em suas vidas. A responsabilidade individual é respeitada e ninguém precisa justificar-se. As pessoas não entram numa relação terapêutica e nas formalidades de uma psicoterapia convencional. Isso faz bem a muitas pessoas em necessidade, e elas apreciam isso.
Para o profissional da ajuda, essa outra maneira de considerá-la significa que só pode ajudar quem assumiu, ele próprio, os seus pais e a sua vida. Só pode ajudar quem renuncia a dar, a quem busca ajuda, mais do que essa pessoa precisa e pode aceitar. Toda ajuda precisa adaptar-se às circunstâncias da vida do ajudado, ao seu destino, à sua determinação pessoal, à sua capacidade e às suas decisões e só pode interferir como apoio, onde e como a dignidade dele o permitir.
Quem ajuda precisa naturalmente de capacidade para estar à altura da necessidade em questão. Necessidades pessoais não resolvidas de quem ajuda o seduzem a buscar, na simpatia por fracos e vítimas, a força de que precisa para a sua própria vida. O hábito de ser o “grande” e o “salvador” em sua própria família leva-o à ilusão de que precisa estar à altura dos destinos dos clientes e ser melhor para eles do que os seus pais. Porém a ajuda precisa ser cuidadosamente separada da própria pessoa do terapeuta. A ajuda é totalmente sustentada pelas forças e pelo saber da alma da família do cliente e,para além dela, pela atuação de forças superiores que temos dificuldade em nomear. Dessa forma, a constelação familiar também faz bem a quem ajuda.
Jacob Robert Schneider - Constelações Familiares