sábado, 13 de janeiro de 2018

A DISPOSIÇÃO NATURAL EM COMPREENDER

                                             SOBRE A CRÍTICA.
Antes de mais nada, por que criticamos? Para compreender? Ou é simples vontade de irritar os outros? Se vos critico, compreendo-vos ? Vem a compreensão como resultado de julgamento? Se desejo compreender, se desejo compreender não na superfície, mas a fundo, o inteiro significado de minha relação convosco, começo por criticar-vos ? Ou me torno cônscio dessa relação entre vós e mim, observando-a em silêncio, abstendo- me de projetar minhas opiniões, minhas críticas, julgamentos, iden­tificações ou censuras, observando em silêncio o que se está pas­sando? Se não critico, que acontece? É provável que me ponha a dormir, não é? — o que não significa que não adormecemos quando censuramos os outros. Pode acontecer que isso se torne um hábito, e o hábito faz dormir. Vem-nos uma compreensão mais profunda e mais ampla, criticando os outros? Não importa se a crítica é construtiva ou destrutiva: isso não vem ao caso, por certo. Por conseguinte, a questão é esta: qual o estado da mente e do coração, necessário para que se possa compreender as relações? Qual é o processo da compreensão? Como compreendemos alguma coisa? Como compreendeis vosso filho, se sentis interesse por vosso filho? Observando-o, não é verdade? Observando-o quando brinca, ou estudando-lhe as diferentes disposições de ânimo; abstendo-vos de projetar vossa opinião sobre ele. Não dizeis que ele devia ser isso ou aquilo. Estais muito vigilante, não é verdade?-ativamente vigilante. Então, talvez comeceis a compreender a criança. Se estais constantemente a criticá-la, a injetar-lhe vossa própria personalidade, vossas idiossincrasias, vossas opiniões, deter­minando como ela deve ser ou como não deve ser, etc., criais, natu­ralmente, uma barreira nessas relações. Infelizmente, criticamos, quase todos nós, porque desejamos moldar, porque desejamos inter­ferir. Dá-nos certo prazer, certa satisfação moldar uma coisa — as relações com o marido, o filho ou quem quer que seja. Vem-vos, daí, uma sensação de força, sois vós "quem manda”, e nisso há imensa satisfação. Ora, sem dúvida, em todo esse processo não há compreensão das relações. A mera imposição, o desejo de moldar os outros pela norma especial de vossa idiossincrasia, vosso desejo, vossa vontade, tudo isso impede a compreensão das relações.

Jiddu krishnamurti em "A Primeira e Última Liberdade".

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