Olhe para seu pai e perceba: há um convite na sua mão estendida. Pais nos levam
para o mundo, apresentam oportunidades, complementam nossa coragem quando
necessário. Nos fazem seguir em frente.
Pais
são nosso símbolo máximo de autoridade, e talvez por isso, muito
incompreendidos e julgados, para que possam nos prover de segurança e
disciplina.
Nos
permitem crescer, mesmo que para isso arrisquem o papel de heróis, que nós
filhos, tão infantis no nosso amor, desejamos.
Pais
são heróis, mas não pelos motivos que acreditamos. Em tudo que fazem há uma
disposição para cuidar, prover e ajudar a crescer. São heróis por suportarem o
limite que precisamos, mas não queremos enfrentar. Se aceitarmos, teremos o
melhor ambiente para crescer. Se não, a vida o fará com menos carinho.
Um pai
e uma mãe.Há, com certeza, algo especial em como um pai e uma mãe se complementam. Seus
papéis podem variar, mas não existe um pai sem haver uma mãe e vice-versa. A concepção
precisa destes dois papéis.
Enquanto
a mãe alimenta, o pai cuida da segurança. Num primeiro momento, o trabalho mais
pesado é da mãe. É de quem o filho mais precisa nos primeiros anos.
Mas o
tempo passa, e garantida a sobrevivência dos primeiros anos, será o pai que
guiará o filho para o mundo, para a descoberta, para o vôo.
Pais
são nossos referenciais para o masculino. Para um filho homem, é onde ele
encontra a força para ser o que seu papel permite. Através da vivência com o
pai, um garoto cresce e vive o que há de mais poderoso no mundo masculino, e
aos poucos vai encontrando sua identidade e suas possibilidades.
O mesmo
ocorre com a filha mulher, com a diferença que após os primeiros anos com a
mãe, a filha deve ir para o pai, aprender a caminhar no mundo e então, voltar
para a mãe, onde ela deve tomar todo o feminino que precisa para seguir
adiante.
Nos
dois casos, o pai é essencial para o bom desenvolvimento dos filhos e para que
o movimento deles para o mundo seja realizado com sucesso.
O Pai,
por Bert Hellinger
(trecho adaptado do material da Hellinger LebenSchule)
Dentro
do sistema familiar, o homem e a mulher têm prioridades iguais. Eles criam a
família juntos, eles são equivalentes.
Em
relação aos filhos, o homem e a mulher são igualmente grandes. Porém é dentro
da mãe que começa a vida. Dentro dela somos concebidos, dentro dela nós
crescemos. Ela é tudo pra nós, com ela experienciamos a unidade, até que
nascemos.
O que
então ainda resta ao pai?
Bert
Hellinger diz:
“Somente
na mão do pai a criança ganha um caminho para o mundo. As mães não podem
fazê-lo. O amor dele não é cuidadoso nesta forma como é o amor da mãe. O Pai
representa o espírito. Por isso o olhar do pai vai para a amplitude. Enquanto a
mãe se move dentro de uma área limitada, o pai nos leva para além desses
limites para uma amplitude diferente.”
Bert
Hellinger
E os
pais que nos foram difíceis?
“Eu não consigo aceitá-lo.”
Não
aceitar ao pai é não aceitar a sua realidade, o que já compõe você. Nós como
filhos, temos dificuldades de encarar os pais como os seres humanos que são.
Imaginamos e esperamos deles coisas que atravessam o limite do justo e
possível.
O pai,
dentro do sistema familiar, tem o papel da ordem, da rigidez e da autoridade.
No mundo, temos uma dificuldade de compreensão com esse papeis. Quando este
assunto entra em nossa casa, na figura de um homem do qual esperamos somente o
amor idealizado na nossa mente, o conflito se instala.
Um bom
caminho de volta aos braços do pai é ver o que verdadeiramente o move. O Amor
escondido em atos de humanidade. É dar a ele o tamanho devido, não imaginário.
Hellinger
nos instrui a deixar com os pais o que pertence ao destino deles, com tudo o
que faz parte e tudo que faz falta. É necessário reconhecê-los como pessoas
normais e comuns e que vieram de seus próprios emaranhamentos.
Aqui
talvez valha olhar para si próprio e as dificuldades que não conseguimos
resolver. Se estamos neste caminho de vida, em algum momento podemos nos tornar
pai e mãe, e carregaremos para esta experiência o que nos compõe hoje, com
todas as dores e amores. Nossos pais estiveram nesta mesma posição, por vezes
influenciados por algo que não conseguiram escapar.
De uma
coisa temos certeza: O filho que se alinha ao pai, independente do destino que
lhe coube, é mais apto e leve para seguir adiante. Com o tempo as peças se
ajustam e o nosso caminhar prospera com ele no coração.
Carta
de Bert Hellinger para seu pai
Como filhos, por vezes julgamos nosso pai como insuficiente, desejando coisas
diferentes do que recebemos. Esse é um caminho duro para todo o sistema, onde
todos sofrem e de certa forma, todos nós passamos por ele.
Por
isso, segue abaixo a carta de Bert Hellilnger ao seu pai, onde ele fala
que, como filho, já se colocou nesta posição de juiz do pai. Ao mesmo tempo,
percebe o vazio que fica ao não ter seu pai no coração, e reconhece, como
adulto, tudo o que não percebeu dos muitos presentes do seu pai durante a vida.
Identifique-se
e leia com seu pai em mente, e sinta a alegria de reconhecer a gratidão que já
está dentro de você, por vezes escondido por trás de algo interrompido. Filhos
amam seus pais. E seus pais, como podemos ver todos os dias, estão
completamente disponíveis para seus filhos, dentro do limite possível de cada
um.
Querido
papai,
Por
muito tempo eu não soube o que me faltava mais intimamente.
Por
muito tempo, querido papai, você foi expulso de meu coração.
Por
muito tempo você foi um companheiro de caminho para quem eu não olhava, porque
fixava meu olhar em algo maior, como me imaginava.
De
repente, você voltou a mim, como de muito longe, porque minha mulher Sophie o
invocou.
Ela viu
você, e você me falou por meio dela.
Quando
penso o quanto me coloquei muitas vezes acima de você, quanto medo também eu
tinha de você, porque muitas vezes você me batia e me causava dores, e quão
longe eu o expulsei de meu coração e tive de expulsá-lo, porque minha mãe se
colocava entre nós; somente agora percebo como fiquei vazio e solitário, e como
que separado da vida plena.
Porém,
agora você voltou, como que de muito longe, para minha vida, de modo amoroso e
com distanciamento, sem interferir em minha vida.
Agora
começo a entender que foi por você que, dia a dia, nossa sobrevivência era
assegurada sem que percebêssemos em nosso íntimo quanto amor você derramava
sobre nós, sempre igual, sempre visando o nosso bem-estar e, não obstante, como
que excluído de nossos corações.
Algumas
vezes lhe dissemos como você foi um pai fantástico para nós?
Você
foi cercado de solidão e, não obstante, permaneceu solícito e amoroso a serviço
de nossa vida e de nosso futuro.
Nós
tomávamos isso como algo natural, sem jamais honrar o que isso exigia de você.
Agora
me vêm lágrimas, querido papai.
Eu me
inclino diante de sua grandeza e tomo você em meu coração.
Tanto
tempo você esteve como que excluído do meu coração.
Tão
vazio ele estava sem você.
Também
agora você permanece amigavelmente a uma certa distância de mim, sem esperar de
mim algo que tire algo de sua grandeza e dignidade.
Você
permanece o grande como meu pai, e tomo você e tudo que recebi de você, como
seu filho querido.
Querido
papai,
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