Entre as vivências que temos com nossos pais se encontram as
doces, que nos fazem sorrir e nos sentir bem, e as amargas que nos doem e nos
contraem.
As primeiras parecem nos impulsionar para a
vida, e as outras parecem nos entorpecer.
A tentação para muitos consiste em querer
aceitar apenas o positivo e expulsar o negativo, e isso tem uma lógica
esmagadora: queremos nos afastar daquilo que nos causou, ou ainda causa, dor.
Assim, alguns recusam os pais e o que vêm deles.
No entanto, temos de compreender que a lógica
emocional dos afetos funciona de maneira precisamente pouco lógica.
E mais paradoxal e independente de nossa
vontade, motivo pelo qual frequentemente, como já citei, o repúdio nos prende
com mais força ao que recusamos ou àqueles que recusamos.
Para o bem ou para o mal, não governamos os
afetos com nossa mera vontade; a linguagem do coração se escreve em outro
ritmo, sutil, decisivo e apaixonado, dificilmente quadriculado.
Desse modo, muitos que não aceitam suas moedas e
permanecem na queixa ou no ressentimento se comportam, quando mais velhos, como
seus pais ou reproduzem comportamentos daninhos iguais aos recebidos.
O que de fato ajuda é realizar o processo de
aceitar também o que foi difícil, e com isso talvez nos tornarmos mais fortes
ou mais sábios.
Ou seja, também o que parece negativo está a
serviço da vida, e podemos aproveitá-lo a nosso favor.
O sofrimento também é capaz de nos fazer mais
plenamente humanos.
Algumas pessoas que sofreram graves perdas ou
traumas com seus pais, por exemplo, se superam e constroem uma vida com alegria
e muito sentido.
Em contrapartida, há pessoas que, amparando-se
em pequenas frustrações com seus pais, se acham no direito de ter uma vida
escassa ou penitencial e culpam os pais para justificar seus erros ou
fracassos.
Devemos saber que nada nos impede de nos
desenvolvermos bem, e que do passado conservamos apenas as cinzas em forma de
imagens guardadas na mente.
Que podemos transformá-las e ficar em paz com o
que passou, ao menos com o que recordamos dele.
E assim nos abrirmos ao presente, o lugar e o
tempo do verdadeiro fogo do viver.
Em geral, as pessoas que realizam o processo
interior de aceitar suas moedas e ficar em paz com seus pais e com sua história
se sentem melhor consigo mesmas, estabelecem relações adultas e espontâneas
mais facilmente e retribuem à vida com o que possuem.
(Texto de Joan Garriga)

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